Pôr-nos a pensar no vasto conhecimento ancestral pode levar-nos através de um grande vale cheio de dúvidas e mistérios, mas lembremo-nos de que o natural e o sobrenatural estão estreitamente ligados. Embora na nossa sociedade olhemos para o sobrenatural como algo extraordinário, remoto, algo à parte das nossas vidas, ou até tenhamos descartado por completo esta noção do mundo, para muitas culturas como a nossa, o invisível faz parte do visível. As culturas que floresceram no território do altiplano não são alheias a toda esta aura mística e às energias naturais ou universais.
O que é a cosmovisão andina?
A cosmovisão é uma forma de interpretar o mundo, aquilo que nos rodeia, aquilo que vemos. Desenvolvida ao longo de 5 mil anos, a cosmovisão andina dos povos originários quéchuas formou-se desde a civilização de Caral até chegar aos Incas e sobreviveu até hoje nas comunidades originárias quéchuas.
A cosmovisão andina é a visão do cuidado da natureza, do cosmos vivo (Pachamama) e da relação sagrada entre o ser humano e a terra. É também uma visão do comunitarismo andino baseada na reciprocidade (Ayni) e no cuidado das relações humanas, do viver em comunidade (Ayllu), do amor e respeito pelos seres vivos, pelas crianças e pelos anciãos, pelas árvores, montanhas, rios e por todo o universo.
VIAS DE MANIFESTAÇÃO DA COSMOVISÃO ANDINA
Pachamama: Geralmente é descrita como uma divindade feminina, encarregada de propiciar a fertilidade nos campos, pelo que no mundo andino é a divindade máxima das montanhas e das zonas do altiplano. É descrita como uma mulher indígena de muito baixa estatura, cabeçuda e de pés grandes, que usa chapéu de abas largas e calça enormes ojotas. Vive nos cerros e muitas vezes é acompanhada por um cão preto muito bravo. A víbora é o seu laço, e o quirquincho o seu porco. Por vezes carrega arcas de couro cheias de ouro e prata. É ciumenta, rancorosa e vingativa, mas se alguém lhe cai em graça, favorece-o. Quando se zanga, envia o trovão e a tempestade.
A dualidade andina: Este conceito entende-se como a oposição entre duas essências complementares, ou seja, todos os opostos se complementam, o que concede ao sujeito andino o único “espaço” em que pode viver. A dualidade, Hanan e Urin (ou hahua e ukhu), respectivamente, baseia-se no princípio de que tudo se transforma, porque a natureza e o espaço não são algo imóvel ou imutável, mas algo em mudança constante, em movimento contínuo, algo que se renova e se desenvolve incessantemente. Nesse sentido, tudo está relacionado; a natureza e o espaço são um todo articulado e único, no qual os objectos e os fenómenos se encontram organicamente ligados uns aos outros, dependem uns dos outros e condicionam-se mutuamente.
Espiritualidade nos rituais: É o ritual andino ancestral de reciprocidade e agradecimento à Mãe Terra pelo seu sustento, onde se oferecem folhas de coca, chicha, milho, doces e outros elementos simbólicos, enterrando-os ou queimando-os, e se pede a sua bênção para a saúde, a prosperidade e as boas colheitas, sendo o dia 1 de Agosto o principal dia desta cerimónia.
Danças: De modo geral, as danças autóctones de Puno são expressões rituais e ancestrais que reflectem a cosmovisão andina, caracterizadas pela sua profunda ligação com a agricultura, a criação de gado e a veneração de divindades como a Pachamama. Estas danças são executadas com música autóctone (sikus, pinquillos) e vestimentas artesanais de lã, destacando-se pela sua energia, simbolismo, cores vivas e uso de elementos como penas e espelhos.
O MISTERIOSO SER AYMARA
Não há nada em que o Kharisiri não se possa transformar. Pode ser um cão, um gato, um homem ou um bebé. A cosmovisão andina diz que esta personagem fez um pacto com o mal e obteve os poderes da magia negra. Segundo este mito da região andina aimará, os Kharisiri são seres maléficos que actuam de forma muito sigilosa. Fazem as suas vítimas dormir e enfraquecem-nas, retirando-lhes a gordura e o sangue, até as deixarem agonizantes.
Segundo afirmam os curandeiros dos Andes, deve-se recorrer a eles para praticar um ritual que reverta o mal.
LENDA DO PORTAL INTERDIMENSIONAL DE ARAMU MURU
Segundo a tradição oral local, em tempos da conquista, um sacerdote inca de alto nível chamado Aramu Muru fugiu com o Disco Solar de ouro, um artefacto sagrado que era guardado no Templo do Sol de Cusco. Temendo que caísse nas mãos dos espanhóis, viajou até Hayu Marca, onde havia um portal talhado na rocha.
Ali, acompanhado por sacerdotes andinos, realizou um ritual diante do portal. Colocou o disco dourado numa ranhura situada no centro da porta, que se iluminou intensamente. Nesse momento, Aramu Muru desapareceu atravessando a pedra, segundo testemunhas. Desde então, acredita-se que o portal pode abrir-se através de rituais especiais e que se liga a outros planos de existência.
As pacarinas: Os antigos peruanos acreditavam que os primeiros habitantes dos ayllus, os povos andinos, surgiram das pacarinas (grutas, lagos, lagoas ou nascentes) por ordem dos deuses, especialmente Wiracocha. Antes de serem humanos, tinham sido pedras ou rochas do ukhu pacha (mundo subterrâneo), e através das pacarinas saíram para povoar o kay pacha (superfície terrestre). Era um lugar muito sagrado para os antigos peruanos, que lhe prestavam culto e deixavam oferendas. Esta crença estreitava ainda mais o seu vínculo com o espaço onde residiam e entre os membros de uma comunidade. Estes lugares eram alvo de grandes peregrinações que serviam para reafirmar esse vínculo territorial, étnico e espiritual com as pacarinas. São lugares de origem mítica dos povos andinos. Estes centros de criação são muitos, e os principais foram:
- A gruta Cápac Toco (do cerro Tamputoco): pacarina da etnia Inca.
- A lagoa de Choclococha: pacarina da etnia Chanca.
- A Nascente de Warivilca: pacarina da etnia Huanca.
- O lago Titicaca: pacarina da etnia Tiahuanaco.
Actividades que é possível encontrar num tour místico
- Cerimónia do Pagachi da Folha de Coca, onde o xamã andino poderá comunicar com os Apus através da folha ancestral para iniciar os restantes rituais.
- Cerimónia do Challachi, onde se utiliza vinho para salpicar a terra santa, a qual nos mostrará muitas formas geométricas que permitem ver o nosso passado, presente e futuro.
- Cerimónia do Sahumerio, onde se realiza a purificação do nosso espírito, transformando-o num espírito novo e puro.
- Cerimónia do chamado da Alma ou Ánimo, onde se une o corpo físico com a mente e o espírito.
- A grande cerimónia dos “Apus” (Grandes Espíritos Incas representados pelas montanhas sagradas vivas).
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