Alguma vez sentiste a emoção de cruzar-te com um animal selvagem no seu habitat natural? Esquece as jaulas e os jardins zoológicos. Nas pampas de Puno, a aventura é real. Aqui, a paisagem é o cenário e a fauna local é a protagonista de um espectáculo silencioso que poucos têm o privilégio de presenciar.
Prepara a tua câmara e ajusta o teu casaco, porque uma vez em Puno, levamos-te ao coração do Altiplano para que conheças de perto as estrelas das alturas. Desde os rebanhos de camelídeos sul-americanos ao amanhecer até às aves migratórias que pintam de cor as lagoas salinas. Continua a ler para descobrir quais são as espécies que não podes perder na tua próxima expedição a Puno e como podemos ajudar-te a viver este encontro de forma segura e sustentável.
O que é o Altiplano de Puno?
O Altiplano de Puno é uma meseta interandina de origem tectónica, delimitada pelos nós montanhosos de Porco e Vilcanota, que se estende entre os 3.700 e os 4.800 metros acima do nível do mar. Este ecossistema de alta montanha apresenta um clima frio e semiárido, com temperaturas médias entre 0°C e 7°C, uma marcada oscilação térmica diária —com mínimas que podem atingir os -25°C— e uma radiação solar intensa, produto da menor densidade atmosférica. A sua hidrografia é articulada pelo Lago Titicaca (3.914 m acima do nível do mar), o corpo de água navegável mais alto do planeta, que actua como regulador microclimático e sustenta uma rede de 25 afluentes distribuídos por quatro bacias principais: Ramis, Ilave, Coata e Desaguadero.
De uma perspectiva ecológica, o Altiplano estrutura-se em duas unidades funcionais: a puna, uma estepe altoandina dominada por pajonais de ichu, tolares e queñuales, onde a vegetação desenvolveu adaptações fisiológicas para resistir a geadas e secas; e a zona costeira do Titicaca, uma faixa lacustre com vegetação hidrófila como totorais, juncais e bofedales, zonas húmidas manejadas ancestralmente para produzir forragem de alto valor proteico. Esta dualidade de ambientes configura a base trófica que permite a existência de uma fauna especializada: camelídeos, aves aquáticas e pequenos mamíferos que não só sobrevivem em altitude, como evoluíram para prosperar num dos ambientes mais exigentes do continente.
Quem são os protagonistas?
Os Camelídeos Sul-Americanos
Existem quatro espécies de camelídeos sul-americanos: lhama, alpaca, vicunha e guanaco. Duas delas são domesticadas (lhama e alpaca), enquanto as outras duas vivem em estado selvagem (vicunha e guanaco). Todas estão perfeitamente adaptadas à altitude e ao clima extremo dos Andes.
1. Lhama
À primeira vista, os quatro camelídeos andinos podem parecer parentes muito semelhantes, mas cada um tem a sua própria história e personalidade. A lhama é a maior e mais robusta do grupo: atinge até 1,60 m de altura e pesa cerca de 200 kg. As suas orelhas longas e curvadas em forma de banana são a sua marca distintiva. Desde tempos pré-hispânicos, tem sido o “animal de carga” dos Andes, capaz de transportar até 25% do seu peso por trilhos de montanha. A sua pelagem, mais grossa e menos fina do que a dos seus parentes, é usada para tecidos rústicos, cordas e tapetes.
2. Alpaca
A alpaca, por sua vez, é mais pequena —cerca de 90 cm de altura— e de constituição mais delicada. O seu maior tesouro é a fibra: suave, quente e resistente, considerada uma das melhores do mundo para a indústria têxtil. Ao contrário da lhama, a alpaca não é usada para carga; o seu valor reside na sua lã, que pode apresentar-se em mais de 22 tons naturais, desde o branco puro até aos pretos intensos e castanhos terra. É um animal completamente domesticado, criado por comunidades altoandinas que dependem da sua carne, pele e, sobretudo, da sua preciosa fibra.
3. Vicunha
Quando falamos de vicunha e guanaco, entramos no mundo dos camelídeos selvagens. A vicunha é a mais esbelta e elegante: mede entre 75 e 95 cm, com uma pelagem dourada no dorso e o peito coberto de tufos brancos e sedosos. A sua fibra é a mais fina do planeta, tão valorizada que durante décadas esteve em perigo de extinção devido à caça ilegal. Hoje, graças a programas de conservação e tosquias cerimoniais tradicionais, o chaccu, a sua população está a recuperar.
4. Guanaco
O guanaco, por seu lado, é maior e mais robusto do que a vicunha, com uma pelagem castanho-avermelhada na parte superior, branca no ventre e rosto escuro. Habita desde a costa até à alta montanha e, embora nunca tenha sido domesticado, a sua carne e couro foram aproveitados por populações locais.
Chaves para os diferenciar
A chave para os diferenciar no terreno vai além do tamanho: observa as suas orelhas (longas e curvas na lhama, pontiagudas na alpaca, pequenas no guanaco e na vicunha), o seu comportamento (as domesticadas aproximam-se com curiosidade; as selvagens mantêm distância) e o seu ambiente. Enquanto lhamas e alpacas pastam perto de comunidades e bofedales manejados, vicunhas e guanacos preferem zonas mais agrestes e protegidas. Conhecer estas diferenças não só enriquece a tua observação, como também te ajuda a valorizar o esforço de conservação que mantém viva esta fauna emblemática do Altiplano.
As Aves do Titicaca e da Puna
Aves do Titicaca e da Puna: Um Santuário Alado nas Alturas
A Reserva Nacional do Titicaca é um paraíso para os amantes da observação de aves, albergando mais de 105 espécies que desenvolveram adaptações únicas para sobreviver a mais de 3.800 metros de altitude. Desde aves aquáticas que navegam pelas águas do lago até espécies terrestres que habitam os pajonais da puna, cada uma conta uma história de sobrevivência e beleza.
Espécies Emblemáticas do Lago
1. Keñola ou mergulhão do Titicaca (Rollandia microptera)
A ave mais representativa do lago e um verdadeiro endemismo. De cor acastanhada, com cabeça preta, pescoço branco e corpo castanho-avermelhado, destaca-se pelo seu bico amarelo. É incapaz de voar, mas é um mergulhador excepcional que se alimenta de peixes pequenos, inferiores a 15 cm. A sua presença é um indicador da saúde do ecossistema lacustre.
2. Pato-mergulhador-grande (Oxyura ferruginea)
Espécie em perigo de extinção
Com pescoço e garganta brancos, testa e coroa negras, e um característico bico azul recto e pontiagudo, é um dos maiores patos-mergulhadores do Titicaca. As suas patas, embora dificultem a caminhada em terra, funcionam como remos perfeitos debaixo de água. Encontra-se em Chucuito, Juli, Ramis e na Laguna Arapa.
3. Pato Puneño (Spatula puna)
Muito comum na zona, habita lagos e rios de Puno. A sua cabeça preta, faces cor creme e bico azul tornam-no inconfundível. Alimenta-se de ervas aquáticas e crustáceos, e é residente tanto no Peru como na Bolívia.
4. Pato Colorado (Spatula cyanoptera)
Também conhecido como cerceta colorada, tem um pequeno bico em forma de colher, asas azul-celeste com uma faixa branca e patas amarelas. Alimenta-se de sementes, plantas, insectos e moluscos aquáticos.
Aves de Zonas Húmidas e Margens
1. Flamingo andino
O flamingo andino ou flamingo comum (Phoenicoparrus andinus) é a “supermodelo” rosa da puna, destacando-se por ser o único flamingo com patas amarelas e um elegante triângulo preto no dorso. Habita lagoas salobras entre 2000 e 4500 metros acima do nível do mar, mede até 1,36 metros de altura e exibe uma plumagem branca rosada. Alimenta-se de algas e diatomáceas, que filtra através do seu bico preto e amarelo.
2. Garça-branca (Ardea alba)
Ave impressionante que atinge um metro de altura, com plumagem completamente branca, patas e bico pretos. Habita as zonas húmidas e é um espectáculo vê-la pescar pacientemente nas margens.
3. Garça-bruxa (Nycticorax nycticorax)
De aparência chamativa: olhos vermelhos intensos, pescoço branco a cinzento-claro, rosto e ventre brancos, e cabeça, nuca e dorso pretos. Os adultos desenvolvem 2-3 penas longas ornamentais. Alimenta-se de peixes, pequenos répteis e anfíbios.
4. Gaivota andina (Chroicocephalus serranus)
Residente do Titicaca, com cabeça preta, que se torna cinzento-clara fora da época reprodutiva, corpo branco, asas cor de chumbo e ponta da cauda preta. As suas patas são vermelho-escuras. Habita rios, lagos, lagoas e pântanos.
Aves Terrestres da Puna
1. Pica-pau andino (Colaptes rupicola)
Uma das poucas espécies terrestres especializadas. As suas asas servem-lhe de camuflagem no ambiente, tem cabeça cinzento-escura com penas vermelhas na nuca, mais evidentes nos machos, e um bico comprido que usa para procurar larvas em pajonais, pastagens e margens de rios.
2. Pombinha-dourada (Metriopelia aymara)
Também chamada rolinha de pontos dourados, é de cor castanho-dourada com pontos dourados nos ombros, bico cinzento-escuro e patas vermelhas. A cauda e as pontas das asas são pretas. Vive perto de casas e currais, geralmente em grupos ou em pares.
3. Andorinha andina (Orochelidon andecola)
Habita zonas montanhosas e vales. Tem cabeça preta com brilhos esverdeados, garganta, peito e ventre cinzento-claros, asas e cauda escuras. Alimenta-se de insectos e está presente no Peru, Bolívia, Chile e Argentina.
4. Fringilo Peruano (Phrygilus punensis)
Conhecido como pardal andino, o macho tem cabeça e pescoço cinzentos, dorso e costas amarelos, e asas cinzentas. Alimenta-se de sementes, insectos e aracnídeos. Gosta muito de cantar e encontra-se entre rochas, pastos, arbustos, quebradas e bosques de queñoa.
5. Varillero Ala Amarilla (Agelasticus thilius)
Habita lagos, zonas húmidas e campos secos. O macho é predominantemente preto com uma chamativa cor amarela nas asas, mais visível ao voar, enquanto na fêmea o amarelo é menos visível. Andam sempre em casal.
Pequenos Habitantes e Predadores
1. Vizcacha (Lagidium viscacia):
Este pequeno roedor, pertencente à família das chinchilas, apresenta um corpo compacto de 35 a 45 cm, coberto por uma pelagem densa em tons cinzentos e castanhos que lhe permite camuflar-se com as formações rochosas onde habita. Durante o amanhecer ou o entardecer, os seus horários de maior actividade, é possível observá-la a saltar com agilidade entre as fendas dos cerros, alimentando-se de pastos duros, raízes e líquenes adaptados à dureza do clima altoandino. É um animal social e cauteloso, vive em colónias familiares e emite sons agudos para alertar o grupo perante qualquer ameaça, uma estratégia que reflecte a sua perfeita adaptação a este ecossistema.
2. Porquinho-da-índia selvagem (Cavia tschudii):
É um roedor selvagem que representa um fascinante vínculo evolutivo com o cuy doméstico que conhecemos na gastronomia peruana. Este pequeno mamífero, de 20 a 40 cm de comprimento e aproximadamente 320 g de peso, distingue-se pela sua pelagem rala de tons castanho-acinzentados, ventre esbranquiçado, orelhas curtas e ausência de cauda, adaptações que lhe permitem camuflar-se entre os rochedos e a vegetação dos vales de Puno. De hábitos nocturnos e vida social em pequenos grupos familiares, alimenta-se exclusivamente de pastos e vegetais frescos, desempenhando um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas de puna.
3. Raposa andina (Lycalopex culpaeus):
É um canídeo com uma pelagem densa em tons avermelhados e leonados que contrasta com o seu ventre esbranquiçado, e uma característica cauda acinzentada de ponta preta que pode representar até 50% do seu comprimento corporal. Este predador oportunista atinge entre 4 e 13,8 kg de peso e até 1,7 metros de comprimento, incluindo a sua elegante cauda. De hábitos solitários e crepusculares, embora com actividade tanto diurna como nocturna, a raposa andina desempenha um papel ecológico fundamental ao regular populações de roedores e lagomorfos, complementando a sua dieta com aves, répteis, carniça e até frutos silvestres, demonstrando uma notável adaptabilidade à oferta do altoandino.
4. Puma andino (Puma concolor):
Este majestoso felino, conhecido em quéchua como Puma e em aimará como Titi, habita entre os 3.800 e os 4.800 m acima do nível do mar, movendo-se com sigilo entre os bofedales de Azángaro, os cerros de Lampa e as zonas rochosas da Reserva Nacional do Titicaca. Com uma pelagem curta em tons leonados que se fundem com a vegetação de ichu e tola, e uma musculatura poderosa que lhe permite saltar com precisão sobre terrenos escarpados, o puma de Puno atinge até 1,8 metros de comprimento e um peso entre 50 e 100 kg, sendo um predador-chave que regula populações de vizcachas, raposas andinas e, ocasionalmente, camelídeos jovens em estado selvagem. De hábitos crepusculares e natureza esquiva, a sua presença é um indicador de saúde ecológica na puna, pois necessita de grandes extensões de território bem conservado para sobreviver.
5. Rã gigante do Titicaca (Telmatobius culeus):
Nas profundezas do Lago Titicaca, o espelho de água navegável mais alto do mundo, localizado a 3.810 m acima do nível do mar no coração do Altiplano de Puno, habita um anfíbio endémico que representa um dos tesouros biológicos mais singulares e ameaçados do nosso planeta. Com a sua característica pele laxa e pregueada, que lhe permite realizar a troca de gases completamente através dela, esta rã pode atingir até 50 cm de comprimento e habita principalmente zonas lamacentas e rochosas com vegetação aquática submersa entre 2 e 15 metros de profundidade. No entanto, este emblemático habitante do lago, que os povos originários veneravam desde tempos pré-hispânicos, enfrenta uma crise sem precedentes: classificada como Em Perigo Crítico tanto no Peru como na Bolívia, a sua população diminuiu mais de 80% nas últimas três décadas devido à sobreexploração para consumo em sumos e preparados medicinais, à contaminação do lago, à introdução de espécies invasoras como a truta e o peixe-rei, e a doenças emergentes como a quitridiomicose.
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