Alguma vez ouviste falar do felino que caminha sem deixar rasto na puna?

Nos cumes onde o vento corta como uma faca e as rochas guardam a memória dos deuses, existe um ser que os anciãos nomeiam em voz baixa: o gato andino, o fantasma cinzento dos Andes. Dizem que a sua pelagem malhada se funde com as nuvens de tempestade, que os seus olhos capturam a lua e que o seu passo é tão silencioso que nem as vizcachas o sentem chegar. Para quéchuas e aimarás, é guardião dos Apus, mensageiro de chuvas e fertilidade, ponte viva entre a terra e o céu. Alguns chamam-lhe Qhoa, o felino voador que traz trovões desde os puquios. Vê-lo é bênção; persegui-lo, maldição.

Mas hoje este espírito sagrado agoniza: restam menos de 2.000 em todo o mundo, vários nas alturas de Puno, como Allincapac (Carabaya), Cuyocuyo (Yunguyo), Ayaviri (Melgar) e outros lugares onde este mítico animal se fez presente. Enquanto atravessas o altiplano ou navegas pelo Titicaca, sob as sombras rochosas, ainda respira… em absoluto silêncio.

Descrição Científica

O gato andino, ou Leopardus jacobita, é um pequeno felino endémico dos Andes altos, acima dos 3.500 metros acima do nível do mar, com pelagem acinzentada malhada, cauda longa e grossa, que caça vizcachas em habitats rochosos. Classificado como “Em Perigo” pela UICN, mede cerca de 60-80 cm de comprimento e pesa até 4 kg; os seus registos no Peru vão desde peles e fezes até fotografias modernas com câmaras-armadilha.

Registos no Peru e em Puno

Em Puno, a sua presença foi confirmada no sítio prioritário Andenes de Cuyocuyo, no distrito de Cuyocuyo, em 2018, com 12 detecções através de 1.275 câmaras-armadilha/dia, mostrando actividade diurna e nocturna. Outros avistamentos incluem Pitumarca (Cusco), em 2022, a caçar vizcachas, e a Reserva Nacional Salinas y Aguada Blanca (Arequipa), em 2015. As ameaças incluem perda de habitat, cães domésticos e caça ilegal.

Significado Cultural

Para os povos quéchuas e aimarás em Puno e no sul do Peru, representa fertilidade, protecção e ligação espiritual com as montanhas (achachilas); aparece em mitos como “titimisi” (guardião de rebanhos), bem como em têxteis e rituais. Estudos destacam o seu valor biocultural em comunidades como Ayaviri (Puno).

O seu valor na moeda peruana

O gato andino foi escolhido para a série “Fauna Ameaçada do Peru” do Banco Central de Reserva. Aparece na moeda de 1 Sol emitida em 2019. No reverso, vê-se a sua silhueta característica junto ao texto “GATO ANDINO Leopardus jacobita” e o ano correspondente. É um reconhecimento oficial da sua raridade e da urgência da sua protecção.

Lugar na cosmovisão andina

Na tradição quéchua e aimará, é um guardião dos Apus, as montanhas sagradas. Está associado ao Qhoa ou Qoa, um felino mítico voador que controla chuvas, trovões e a fertilidade da terra. Também se vincula ao Awatiri Mallku, espírito pastor sobrenatural de lhamas e alpacas, símbolo de abundância e protecção do gado. Vê-lo ou sonhar com ele é interpretado como sinal de boa fortuna ou mensagem dos espíritos da puna.

Conservação Actual, Ameaças e porque quase ninguém o vê

Restam menos de 2.000 indivíduos em todo o mundo; está classificado como criticamente ameaçado pela UICN. As principais ameaças são: expansão mineira, sobrepastoreio de gado, que reduz presas como as vizcachas, alterações climáticas, incluindo secas e fragmentação de habitats, e caça ocasional por retaliação ou superstição. A sua extrema timidez e hábitos nocturnos fazem dele o “fantasma dos Andes”: a maioria dos registos é obtida por câmaras-armadilha, não por avistamentos directos. Organizações como WCS, Pro Carnívoros e SERNANP promovem a protecção em locais como Cuyocuyo, incentivando a colaboração com as comunidades para evitar a fragmentação do habitat. Em 2025, a sua imagem inspira moedas comemorativas e campanhas de consciencialização.